Viver à grande

O grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências. (F. Pessoa)

30 abril, 2005

relances, romantismos, roma antiga

fazer sair todo o mundo
do continente da minha ilha
e te servir a sobremesa
cérebro nos ombros
e coração na beleza

transformar em filme mudo
um feeling de final feliz
faltar o que falar
olhar, suspirar, deixar
o paladar se transformar em roteiro
o cheiro ser o juiz

cérebro na boca
e coração nos quadris

se atirar
no mundo dos fotogramas da vida melhor
e esperar acontecer deu te encontrar
e que qualquer primeira página
seja um romance enorme e maravilhoso
e que tudo aconteça então
cérebro no ar
E CORAÇÃO NA SUA MÃO.


vitor paiva

28 abril, 2005

tarde de sol e frio

porque eu sei que teus cabelos são tempestades que me alucinam
que me despencarei cada vez que subir nos teus andaimes
que me esfaquearei transtornado com suas sutis insinuações sobre o tempo
que me transmutarei em nêspera cada vez que disseres:
hasta luego, luz del fuego
que vagarei sem esperanças quando não mais fizeres parte dos meus próximos capítulos
que capitularei enfim, com a cabeça espatifada nos escombros do meu próprio coração.

chacal

26 abril, 2005

NÃO CHOREMOS, NÃO ODIEMOS, NÃO DESEJEMOS...

Ó felicidade baça!... O eterno estar no bifurcar dos caminhos!... Eu sonho e por detrás da minha atenção sonha comigo alguém... E talvez eu não seja senão um sonho desse Alguém que não existe...
Passeávamos às vezes, de braço dado, sob os cedros e as olaias, nenhum de nós pensava em viver. A nossa carne era-nos um perfume vago e a nossa vida um eco de som de fonte. Dávamo-nos as mãos e os nossos olhos perguntavam-se o que seria o ser sensual e o querer realizar em carne a ilusão do amor...
No nosso jardim havia flores de todas as belezas...rosas de contornos enrolados, lírios de um branco amarelecendo-se, papoulas que seriam ocultas se o seu rubro lhes não espreitasse presença, violetas pouco na margem tufada dos canteiros miosótis mínimos, camélias estéreis de perfume... E, pasmados por cima de ervas altas, olhos, os girassóis isolados fitavam-nos grandemente.
Nós roçávamos a alma toda vista pelo frescor visível dos musgos e tínhamos, ao passar pelas palmeiras, a intuição esguia de outras terras... E subia-nos o choro à lembrança, porque nem aqui, ao sermos felizes o éramos...
O nosso sonho de viver ia adiante de nós, alado, e nós tínhamos para ele um sorriso igual e alheio, combinado nas almas sem nos olharmos, sem sabermos um do outro mais do que a presença apoiada um braço contra a atenção entregue do outro braço que o sentia.
A nossa vida não tinha dentro. Éramos fora e outros. Desconhecíamo-nos, como se houvéssemos aparecido às nossas almas depois de uma viagem através de sonhos...
Na clepsidra da nossa imperfeição gotas regulares de sonho marcavam horas irreais... NADA VALE A PENA, Ó MEU AMOR LONGÍNQUO, SENÃO O SABER COMO É SUAVE SABER QUE NADA VALE A PENA...

Não choremos, não odiemos, não desejemos...

Fernando Pessoa

25 abril, 2005

Distância (ela, de novo)

A verdadeira afeição na longa ausência se prova.
Camões

16 abril, 2005

Máscaras (de um carnaval em Veneza)

E a vida não é uma farsa, é uma tragédia. O aspecto trágico da vida está precisamente nessa lei a que o homem é forçado a obedecer, a lei que o obriga a ser um. Cada qual pode ser um, nenhum, cem mil, mas a escolha é um imperativo necessário.


Um, nenhum e cem mil, Luigi Pirandello

15 abril, 2005

Dicionário 2

Verossimilhança: Qualidade ou caráter de verossímil ou verossimilhante.
Verossímil: 1. Semelhante à verdade. 2. Que não repugna à verdade; provável. Sin.: verossimilhante.

Dicionário

idiossincrassia: constituição individual em virtude da qual cada indivíduo sofre diferentemente os efeitos da mesma causa.//qualquer detalhe de conduta peculiar a um indivíduo determinado e que não pode ser atribuído a processos psicológicos gerais, bem conhecidos.

POR NÃO ESTAREM DISTRAÍDOS

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos!
Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

Clarice Lispector

13 abril, 2005

A GRANDE FALTA

Ela estava tão dentro dele quanto ele dentro Dela. Intrincados ao ponto de tornar-se, ao mesmo tempo, fundo e superfície do outro. Amenizava-se, às vezes no decorrer do dia, nuvens que se dissipam, turvo de água clareando, até o cair da noite e surpreendê-lo nítido, passando a limpo, passando a ferro. Então sorria, dava telefonemas, cantava ou ia ao cinema. Mas adensava-se também, em outras vezes, céu cada vez mais escuro, turvo agitado subindo do fundo, vidro bafejado. Sem dormir: fosforecia entre os lençóis, ouvindo os ruídos da madrugada chegarem como abafados por uma grossa camada de algodão. Dissipava-se ou concentrava-se na manhã seguinte e, concentrando-se, não era uma manhã seguinte, mas apenas uma fluida e mansa continuação. Sem solavancos.
Alguma coisa jamais teria, e tão consciente estava dessa para sempre ausência que, por paradoxal que pareça, era completo neste estado de carência plena. ... chafurdava em emoções: tinha desejos violentos, pequenas gulas, urgências perigosas, enternecimentos melados, ódios virulentos, tesões insaciáveis. Ouvia canções lamentosas, bebia para despertar fantasmas distraídos...

E

Não saberia dizer com certeza como nem quando aconteceu. Mas um dia, um certo dia, um dia qualquer, um dia banal, talvez por certa magia, predestinações, caminhos ou simplesmente acaso, quem saberá, ou ainda por ser natural que assim fosse, menos que natural, inevitável, fatalidades, trágicos encantos – houve um dia, marco,em que o tocaram de leve no ombro.
Ele olhou para o lado. Do lado havia Outra Pessoa. A Outra Pessoa o olhava com cuidadosos olhos castanhos. Os cuidadosos olhos castanhos eram mornos, levemente preocupados, um pouco expectantes. As transformações tinham-se tornado tão rápidas que, no primeiro momento, não soube dizer se a Outra Pessoa via a ele ou a Ela, se se dirigia à moldura, à casca, ao cristal ou ao desenho, ao corpo original, às gotas de sangue. Isso, num primeiro momento. Num segundo, teve certeza absoluta que se tinha desinvisibilizado. A Outra Pessoa olhava para uma coisa que era ele mesmo. Ele mesmo olhava para uma coisa que era Outra Pessoa. O coração dele batia, cheio de sangue. Pousada sobre seu ombro, a mão da Outra Pessoa tinha veias cheias de sangue, latejando suaves.

E

Alguma coisa explodiu, partida em cacos. A partir de então, tudo ficou ainda mais complicado. E mais real.

E

Melhor (?)




Morangos Mofados, Caio Fernando Abreu. E eu

nossa casa, (nossa ilusão?)

A nossa casa

A nossa casa, Amor, a nossa casa!
Onde está ela, Amor, que não a vejo?
Na minha doida fantasia em brasa
Constroi-a, num instante, o meu desejo
Onde está ela, Amor, a nossa casa,
O bem que neste mundo mais invejo?
O brando ninho aonde o nosso beijo
Será mais puro e doce que uma asa?
Sonho ... que eu e tu, dois pobrezinhos.
Andamos de mãos dadas, nos caminhos
Duma terra de rosas, num jardim,
Num país de ilusão que nunca vi ...
E que eu moro - tão bom! - dentro de ti
E tu, ó meu Amor, dentro de mim ...


florbela espanca

O NASCIMENTO DO PRAZER
(trecho)

O prazer nascendo dói tanto no peito que se prefere sentir a habituada dor ao insólito prazer. A alegria verdadeira não tem explicação possível, não tem a possibilidade de ser compreendida - e se parece com o início de uma perdição irrecuperável. Esse fundir-se total é insuportavelmente bom - como se a morte fosse o nosso bem maior e final, só que não é a morte, é a vida incomensurável que chega a se parecer com a grandeza da morte. Deve-se deixar inundar pela alegria aos poucos - pois é a vida nascendo. E quem não tiver força, que antes cubra cada nervo com uma película protetora, com uma película de morte para poder tolerar a vida. Essa película pode consistir em qualquer ato formal protetor, em qualquer silêncio ou em várias palavras sem sentido. Pois o prazer não é de se brincar com ele. Ele é nós.

Clarice Lispector

e se um bando, uma revoada mesmo, de pensamentos inúteis, passasse pela tua cabeça, desejando ser outra coisa, outra espécie de coisas, tu serias capaz de vê-lo passar sem nem mesmo erguer os olhos? como a mais comum das manhãs, como a certeza da próxima estação?
estarias pronta pra acumular em ti o gozo final da morte, resultante dessa transformação espontânea, alheia ao teu desejo de permanência?
o que poderíamos ser além da piada de mal gosto do criador?
vergastados pela ventania de suposições, seguimos tropeçando nas outras almas como se fôssemos a mesma.
e tudo permanece.

Agora que já sabemos de tudo.
Agora que o sorriso está secando as poças da chuva.
Agora que existem segredos a serem desvendados.
Agora que nossas ilusões estão prontas para virar sonho de padaria.
Agora que o sol atravessou a nuvem. Agora que sorvete de chocolate vale mais que antidepressivo.

Agora é a hora da gente se ver. Ou melhor, rever.

Estou contando as horas.
Aguardo o sinal dos deuses.
Sem expectativas.

Somento respirando e abrindo lentamente os olhos.


morte Posted by Hello


vida Posted by Hello

12 abril, 2005

a sala de jantar

Tinham dado onze horas no cuco da sala de jantar. ... A sala esteirada alegrava, com o seu teto de madeira pintado a branco, o seu papel claro de ramagens verdes. Era em julho, um domingo: fazia um grande calor; as duas janelas estavam cerradas, mas sentia-se fora o sol faiscar nas vidraças, escaldar a pedra da varanda; nas duas gaiolas, entre as bambinelas de cretonne azulado, os canários dormiam; um zumbido monótono de moscas arrastava-se por cima da mesa, pousava no fundo das chávenas sobre o açúcar mal derretido, enchia toda a sala dum rumor dormente. ... os seus olhos iam-se demorando, com uma ternura, naqueles móveis íntimos, que eram do tempo da mamã: o velho guarda-louça envidraçado, com as pratas muito tratadas a gesso-cré, resplandecendo decorativamente; o velho painel a óleo, tão querido, que vira desde pequeno, onde apenas se percebiam, num fundo lascado, os tons avermelhados de cobre dum bojo de caçarola e os rosados desbotados dum molho de rabanetes! Defronte, na outra parede, era o retrato de seu pai: estava vestido à moda de 1830, tinha a fisionomia redonda, o olho luzidio, o beiço sensual;... A sala, nas traseiras da casa, dava para um terreno vago, cercado de um tabuado baixo, cheio de ervas altas e de uma vegetação de acaso; aqui, ali, naquela verdura crestada do verão, largas pedras faiscavam, batidas do sol perpendicular; e uma velha figueira brava, isolada no meio do terreno, estendia a sua grossa folhagem imóvel, que, na brancura da luz, tinha os tons escuros do bronze. Para além eram as traseiras de outras casas, com varandas, roupas secando em canas, muros brancos de quintais, árvores esguias.

O Primo Basílio, Eça de Queirós

uma morada lisboeta

Esta nossa casinha é tão honesta, Jujuca saiu muito boa dona de casa: tinha cuidados muitos simpáticos nos seus arranjos; era asseada, alegre como um passarinho, como um passarinho amiga do ninho e das carícias do macho.

11 abril, 2005

dez anos é tempo?


dez anos e:

O espaço que se mede
E que se perde
Não é o tempo perdido
Da memória.

Esquece.
O tempo que se perde
É o mesmo que fenece
A cada hora.

Na hora do homem
Em casa.
Na hora do homem
Na rua.
Na hora do espanto
Desse homem
Sem tempo
No espaço de cada canto

Mas o cansaço do tempo
Que se perde
Não impede o espaço
Que se inaugura.

O espaço do homem
Na praça
O espaço do homem
Em luta com a fúria de outro tempo
: sua surda fúria muda.



dez anos e:
enviamos um telegrama, obedecemos os pais, resistimos ao inimigo, aludimos a fatos, desconfiamos de alguma coisa, falamos de cinema, gostamos de música e poesia, incorremos em faltas, lembramos de aventuras não vividas, prescindimos de conselhos, queixamo-nos de tudo, rimos dos outros, sonhamos com anjos, zombamos da morte e dez anos depois foi como dez segundos