Viver à grande

O grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências. (F. Pessoa)

10 maio, 2005

lily briscoe

- ele já deve ter chegado lá - disse Lily Briscoe em voz alta, sentindo totalmente exausta. pois o Farol se tornara quase invisível, dissipado numa névoa azulada. e o esforço de olhá-lo, o esforço de pensar nele aportando ali - que pareciam constituir o mesmo esforço - fatigara seu corpo e sua mente ao extremo. ah, mas se sentia aliviada. não importa o que ela quisera lhe dar esta manhã, ao se separar dele: dera-o fianlmente.
ele aportou - disse em voz alta. - acabou-se. - então, resfolegando e bufando um pouco, o velho Sr. Carmichael se ergueu ao seu lado, parecendo um velho deus pagão, o cabelo hirsuto entremeado de ervas, e um tridente na mão (na verdade, apenas um romance francês). permaneceu de pé a seu lado na extremidade do gramado, oscilando um pouco o corpanzil. então disse, protegendo os olhos com a mão: - já devem aportado - e ela sentiu que estivera certa. não precisaram falar. estiveram pensando as mesmas coisas e ele lhe respondera sem que lhe perguntasse nada. ele permaneceu de pé ali, estendendo os braços para todo o sofrimento e toda a fraqueza da espécie humana; pensava que estava presidindo, tolerante e compassivamente, o destino final de todos eles. agora coroava a ocasião, deixando a mão tombar vagarosamente, pensou ela, como se deixasse cair de toda a sua magnificente altura uma coroa de violetas e asfódelos que, descendo lenta e fremente, acabasse por pousar no chão.
passeio ao farol, virginia woolf.

06 maio, 2005

salve capote (capote salva)

mas antes que se possa comprar, há o problema do dinheiro; nenhum de nós tem. a não ser as quantias sovinas que as pessoas da casa dão ocasionalmente(dez tostões é considerado muito dinheiro); ou o que nós ganhamos com atividades variadas: fazendo saldo de bugigangas, venda de baldes de amoras colhidas a mão, potes de geléia feita em casa, doce de maçã e compotas de pêssego, colhendo flores para enterros e casamentos...
mas de uma maneira ou de outra todo ano acumulamos economias de Natal, um Fundo para o Bolo de Frutas. escondemos esse dinheiro numa velha bolsa de contas, embaixo de uma tábua solta, embaixo do chão, embaixo de um urinol, embaixo da cama de minha amiga. a bolsa poucas vezes é tirada desse local seguro, a não ser para fazer depósitos, ou, como acontece todo sábado, uma retirada: porque aos sábados tenho o direito a dez centavos para ir ao cinema. minha amiga nunca foi ao cinema, nem pretende ir...
além de nunca ter ido ao cinema, ela também nunca: comeu num restaurante, viajou dez quilômetros de casa, recebeu ou mandou um telegrama, leu qualquer coisa a não ser histórias em quadrinhos, e a Bíblia, usou cosméticos, blasfemou, desejou mal a alguém, disse uma mentira de propósito, deixou sem comer um cachorro faminto. eis algumas das poucas coisas que ela fez e faz: matou com uma enxada a maior cascavel já vista nesse condado(dezesseis chocalhos), cheira rapé(secretamente), domestica beijá-flores(só tenta) até eles se equilibrarem no dedo dela, conta histórias de fantasmas(nós dois acreditamos em fantasmas) tão arrepiantes que congelam o sangue no verão, fala sozinha, passeia na chuva, cultiva as camélias mais bonitas da cidade, conhece a receita de todos os tipos de panacéias dos índios, inclusive um removedor mágico de verrugas.

truman capote, histórias maravilhosas, uma recordação de natal

04 maio, 2005

eu...

eu...
Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber por quê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!

florbela espanca

03 maio, 2005

132.

Quanto mais contemplo o espetáculo do mundo, e o fluxo e refluxo da mutação das coisas, mais profundamente me compenetro na ficção ingênita de tudo, do prestígio falso da pompa de todas as realidades. E nesta contemplação, que a todos, que refletem, uma ou outra vez terá sucedido, a marcha multicolor dos costumes e das modas, o caminho complexo dos progressos e das civilizações, a confusão grandiosa dos impérios e das culturas – tudo isso me aparece como um mito e uma ficção, sonhado entre sombras e desmoronamentos. Mas não sei se a definição de todos estes propósitos mortos, até quando conseguidos, deve estar na abdicação extática do Buda, que, ao compreender a vacuidade das coisas, se ergueu em êxtase dizendo “Já sei tudo”, ou na indiferença demasiado experiente do imperador Severo: “omnia fui, nihil expedit”- fui tudo, nada vale a pena”.

Fernando Pessoa, do “Livro do Desassossego”