Viver à grande

O grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências. (F. Pessoa)

23 junho, 2005

15 de dezembro de 1942

houve uma época em que as pessoas tinham o hábito de dirigir palavras a si mesmas, com bastante frequência, e não tinham vergonha de fazer um relatório de suas transações íntimas. mas hoje em dia, considera-se que manter um diário é uma espécie de auto-indulgência, uma fraqueza e, além do mais, de mau gôsto. porque estamos numa era de endurecimento. persiste hoje, mais forte do que nunca, o código do atleta, do durão - uma herança americana, creio, do gentleman inglês - aquela curiosa mistura de espírito de luta, ascetismo e rigor de que algumas origens remontam a Alexandre, o Grande. - você tem sentimentos? há maneiras corretas e incorretas de indicá-los. - tem vida interior? não interessa a ninguém, a não ser a você mesmo. - tem emoções? estrangule-as. numa certa medida, todos obedecem a este código. e chega ele a admitir uma espécie limitada de franqueza, uma retidão de boca fechada. mas sobre a verdadeira franqueza tem um efeito inibidor. a maioria dos assuntos sérios fecha-se para os endurecidos. não tem prática de introspecção e, portanto, estão mal equipados para lidar com adversários em quem não podem atirar como uma caça graúda, ou que não podem suplantar em ousadia.
se encontra dificuldades, engalfinha-se com elas, silenciosamente, reza um dos mandamentos. ao diabo com tudo isso!!!!! pretendo falar sobre as minhas e, mesmo que eu tivesse tantas bocas como Siva tem braços e pusesse todas elas pra funcionar ao mesmo tempo, ainda assim não poderia fazer justiça a mim mesmo. no meu atual estado de desmoralização, tornou-se necessário que eu tivesse um diário - quer dizer, que eu falasse comigo mesmo - e não me sinto nem um pouquinho culpado de auto-indulgência. os endurecidos têm compensações por seus silêncios: pilotam aviões, enfrentam touros ou pescam camarupins, enquanto eu raramente saio do meu quarto.

saul bellow. por um fio

22 junho, 2005

Das mulheres artistas e das normais

Por Xico Sá, para a Revista Bravo Ano 8, junho 2005-06-22

Do amor e de tantas malas-artes a sabotá-lo. Seja uma atriz do mundo Zé Celso, uma Dj de electrohouse, uma escritora industrial de novelas, uma chef que se acha a própria artista da fome, uma tradutora do grego, a moça do cinema-cabeça, a mina do canto lírico ou uma musa residente do botequim predileto...
As mulheres possíveis e os seus longos ensaios de amor. Aquelas que enfeitiçam, assanham... e nos deixam a chupar, alta madrugada, o frio chicabon da solidão. Melhor amar uma mulher normal, uma honesta enfermeira, como aquela, jamais entregue às artes, e que ainda salva vidas. Ou aquela bióloga que estudas as propriedades antiofídicas da mata atlântica. Ah, uma balconista, suburbanos corações, ah uma jambo-girl das margens do Capibaribe!
Do amor e das moças da classe artística. Donde aqui se narram pequenos episódios, crimes exemplares alvejados contra o coração deste e de outros mancebos próximos, todos vítimas do mesmo infortúnio:

A terra, o homem, a luta

Depois de um reencontro antropofágico na cumeeira do Teatro Oficina, ali quase lambendo estrelas bilaquianas, nunca mais nécaras, nada, cadê minha bela filha de Artaud?... Ensaios d’Os Sertões de quase dez horas, e o cabra na tocaia na esquina fria do Bixiga, o uísque e seu duplo, a esperá-la... E a alucinação do álcool nos faz virar um coronel Moreira Campos, o “corta-cabeças”, vontade de invadir aquela nova Canudos e seqüestrá-la, como o mais civilizado republicano da praça.

O tio e a escrevinhadora

Enquanto ela entretém o populacho, a escrever cenas hilárias da trama televisiva das 7, eu vivo uma mexicanização na pele... Drama, lágrimas, um tiozinho Werther, quarent’anos, envelhecido em barris de carvalho.

A garganta profunda e o homem gargarejo

Nem a bula milagrosa de Ovídio, no volume Os Remédios do Amor, serviu de bálsamo ou analgésico para o infeliz. A estudante de canto lírico o deixou apenas com um zumbido ao longe, mesmo que ele estivesse ali, pertinho, na fila do gargarejo.

O Ulysses-mané e os monólogos de Onan

Depois de uma transa homérica, a tradutora do grego, sereia assassina, deixou o amigo na mão... de Platão.

A Valentina de Crepax e suas botas que machucam

Vestia-se tão bem, mas tão bem, que jamais me deixou despi-la.

A chef, a fome atávica e o amante

Sua fusion food nunca foi para o meu bico. Carrego o peso do amor a quilo.

19 junho, 2005

desejo para nós

Uma nova e arrasadora utopia da vida, onde ninguém possa decidir por outros até a forma de morrer, onde na verdade seja certo o amor e seja possível a felicidade, e onde as estirpes condenadas a cem anos de solidão tenham por fim e para sempre uma segunda oportunidade sobre a Terra.


parte final do discurso de saudação de Gabriel Garcia Márquez à Academia Sueca, na cerimônia que antecede a entrega do Prêmio Nobel.

16 junho, 2005

Cesária Évora

Sodade

Quem mostra' bo
Ess caminho longe?
Quem mostra' bo
Ess caminho longe?
Ess caminho
Pa São Tomé

Sodade sodade
Sodade
Dess nha terra Sao Nic'lau

Si bô 'screvê' me'M ta 'screvê be
Si bô 'squecê me'M ta 'squecê be
Até dia qui bô voltá

Sodade sodade
Sodade
Dess nha terra São Nic'lau

14 junho, 2005

amanhã

amanhã
será um lindo dia
da mais louca alegria
que se possa imaginar
amanhã
redobrada força
pra cima
que não cessa
há de vingar
amanhã
mais nenhum mistério
acima do ilusório
o astro-rei vai brilhar
amanhã
a luminosidade
alheia a qualquer vontade
há de imperar
amanhã
está toda a esperança
por menor que pareça
existe é pra vicejar
amanhã
apesar de hoje
será a estrada que surge
pra se trilhar
amanhã
mesmo que uns não queiram
será de outros que esperam
ver o dia raiar
amanhã
ódios aplacados
temores abrandados
será pleno.


guilherme arantes.

12 junho, 2005

12 de junho

..., porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda oportunidade sobre a terra.


cem anos de solidão. gabriel garcia marquez.

11 junho, 2005

sem título, sem destino.

Tudo é vago e muito vário
meu destino não tem siso,
o que eu quero não tem preço
ter um preço é necessário,
e nada disso é preciso.


paulo leminski

09 junho, 2005

adorei isto. é pra você.

GUI CANTA PARA LOU
Louzinha querida queria morrer num dia em que tivesses me amado
Queria ser bonito para que me amasses
Queria ser forte para que me amasses
Queria ser jovem jovem para que me amasses
Queria que a guerra começasse outra vez para que me amasses
Queria te agarrar para que me amasses
Queria te dar palmadas no traseiro para que me amasses
Queria te pisar para que me amasses
Queria que ficássemos sós num quarto de hotel em Grasse para
que me amasses
Queria que fosses minha irmã para eu te amar incestuosamente
Queria que fosses minha prima que nos amássemos desde criança
Queria que fosses o meu cavalo para eu te montar muito muito tempo
Queria que fosses meu coração para eu te sentir sempre em mim
Queria que fosses o paraíso ou o inferno de acordo com o lugar
onde eu vá
Queria que fosses um menino e eu o teu preceptor
Queria que fosses a noite para nos amarmos no escuro
Queria que fosses a minha vida para eu existir só por ti
Queria que fosses um obus boche para me matar de súbito amor


apollinaire

08 junho, 2005

sinta mais, pense menos.

somos finos como papel. existimos por acaso entre as percentagens, temporariamente. e esta é a melhor e a pior parte, o fator temporal. e não há nada que se possa fazer sobre isso. você pode sentar no topo de uma montanha e meditar por décadas e nada vai mudar. você pode mudar a si mesmo para ser aceitável, mas talvez isso também esteja errado. talvez pensemos demais. sinta mais, pense menos.


charles bukowski. o capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio.

07 junho, 2005

esmagado pela merda

Eu era então um sujeito perseguido pela saudade. Sempre fora, e não sabia como me desligar da saudade e viver tranquilamente.
Ainda não aprendi. E desconfio que não aprenderei nunca. Pelo menos já sei algo valioso: é impossível me desligar da saudade porque é impossível me desligar da memória. É impossível se desligar daquilo que se amou.
Tudo isso estará sempre junto conosco. Sempre teremos tanto o desejo de refazer o bom da vida como o de esquecer e destruir a lembrança do mau...
É totalmente humano, então, ser um nostálgico, e a única solução é aprender a conviver com a saudade. Talvez para nossa sorte, a saudade possa transformar-se, de algo depressivo e triste, numa pequena chispa que nos dispare para o novo, para entregar-nos a outro amor, a outra cidade, a outro tempo, que talvez seja melhor ou pior, não importa, mas que será diferente. E isso é o que todos procuramos todo dia: não desperdiçar em solidão a nossa vida, encontrar alguém, nos entregar um pouco, evitar a rotina, desfrutar de nossa fatia da festa.
Eu ainda estava assim. Tirando todas essas conclusões. A loucura me rondava e eu fugia dela. Tinha sido demais em muito pouco tempo para uma pessoa só, e fui embora de Havana por uns meses.


Pedro Juan Gutiérrez. Trilogia Suja de Havana. Ancorado em terra de ninguém. Esmagado pela merda.

06 junho, 2005

profundo, fugaz e sem ritmo

um dia, porém, sentia seu corpo aberto e fino, e no fundo uma serenidade que não se podia conter, ora se desconhecendo, ora respirando trêmula de alegria, as coisas incompletas. ela mesmo insone como luz - esgazeada, fugaz, vazia, mas no íntimo um ardor que era vontade de guiar-se a uma só coisa, um interesse que fazia o coração acelerar-se sem ritmo... de súbito, como era vago viver. tudo isso também poderia passar, a noite caindo repentinamente, a escuridão fresca sobre o dia morno.

clarice lispector.

05 junho, 2005

já não temo

já não temo os fantasmas
invoco a todos
que venham em bando
povoar meus dias
atormentar minhas noites
entre tantos
loucos e livres
existe um
que é doce
e que me falta


alice ruiz

tem os que passam

tem os que passam
e tudo se passa
com passos já passados
tem os que partem
da pedra ao vidro
deixam tudo partido
e tem, ainda bem,
os que deixam
a vaga impressão
de ter ficado

alice ruiz

schopenhauer

a felicidade e o prazer são apenas quimera, mostradas a distância por uma ilusão, enquanto o sofrimento e a dor são reais e manifestam-se diretamente por si, sem a necessidade da ilusão e da espera.

dias de dor

Se gostamos de alguma coisa, se a queremos e não podemos tê-la, nós sofremos.
Se a queremos, a obtemos e depois perdemos nós sofremos.
Se não a queremos, mas não conseguimos mantê-la afastada, novamente sofremos.

03 junho, 2005

bem no fundo

No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja que olhas pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.


paulo leminski

02 junho, 2005

erro

Agora estava treinando para não levar nada a sério. O homem pode cometer muitos erros pequenos. E não tem importância. Mas se os erros são grandes e pesam na sua vida, a única coisa que ele pode fazer é não se levar a sério. Só assim evita sofrer. O sofrimento prolongado pode ser mortal.

Pedro Juan Gutiérrez. Trilogia Suja de Havana. Ancorado em terra de ninguém. Coisas novas em minha vida.